Entrevista com Ana Botafogo

por Yuri Kraszczuk

Ana Botafogo

Ana Botafogo….. bailarina, bailarina, bailarina….. acima de tudo mulher, observadora, carismática, que ao ser apresentada à dança pequenininha, se apaixonou por esta dança, superou desafios e hoje tem o reconhecimento e o respeito do público e de várias  gerações que a tem como exemplo de determinação e dedicação a sua arte.

Uma mulher que em sua essência é bailarina, uma mulher multifacetada que em cada faceta tem um pouquinho da bailarina, uma mulher que tem seu lado família, tia, dona de casa e acima de tudo artista.

Tivemos a honra de entrevistá-la e agora temos o prazer de compartilhar tudo com vocês.

K&K News: Qual o momento mais marcante de sua vida?

Ana: Meu primeiro espetáculo como primeira bailarina do Theatro Municipal, acho que foi um divisor de águas em minha vida profissional, foi aí que comecei a ver a responsabilidade de ser uma figura principal de um teatro tradicional como o Theatro Municipal. No lado pessoal, citaria meus dois casamentos na igreja perante Deus; são dois momentos muitos importantes na minha vida de Ana Maria, não de Ana Botafogo. Foram momentos muito emocionantes porque ali não estava interpretando nenhum personagem, era apenas eu: achei que ia ter mais controle sobre todo este momento, mas me emocionei muito a ponto de não conseguir reter as lágrimas, porque isso é a história de minha vida.

K&K News: Que importância teve o Ballet de Marseille para a sua carreira?

Ana: Foi minha primeira experiência profissional. Cheguei ávida por conhecimento e num mundo ainda desconhecido para mim, ainda mais, porque estava num pais estrangeiro. De imediato tive um excelente começo numa das mais bem conceituadas cias. da Europa naquele momento. Aprendi muito sobre a profissão, sobretudo sobre profissionalismo. Tudo nesta Cia. funcionava maravilhosamente bem em termos de organização e estrutura. E foi logo na primeira semana como profissional na companhia de Roland Petit, que se chamava Les Ballets de Marseille que percebi que era àquela vida que ia me dedicar de corpo e alma. Aproveitei tudo o que pude, mas o meu sonho era dançar os grandes clássicos, e esse foi uns dos motivos que me fez sair da companhia, que era maravilhosa. Foi maravilhoso ter começado com coreografias de Roland Petit, o que me deu uma abertura de não ser só clássica e também fazer outros tipos de danças, acho que a partir daí foi desabrochando essa vontade de dançar vários estilos e de estar plena no palco.

K&K News: Quais as maiores dificuldades que você enfrentou em sua carreira?

Ana: Acho que primeiramente minha própria superação física, temos que ser “máster” deste nosso corpo. E depois a agonia sempre de saber superar o momento da volta aos exercícios de um machucado mais sério.

“O ARTISTA VEIO AO MUNDO PARA SUPERAR SEUS PRÓPRIOS LIMITES”

K&K News: E o ambiente trabalho, a disputa por um papel?

Ana: Em qualquer profissão, sobretudo dentro de uma empresa onde se quer galgar posições, sempre há disputas. Acho que isso é o menor dentro da profissão. Nós os artistas temos que nos superar a cada dia, claro que cada um é um, eu levo muito esses desafios de ter concorrência por um papel para o lado da emulação, neste caso os bailarinos se aprimoram e se esforçam mais, vendo os seus colegas dançarem. Aprendemos assim. Sou muito observadora e sempre quis ultrapassar limites mesmo sabendo que alguns eram impossíveis.

K&K News: Como você lidou com as lesões durante sua carreira?

Ana: Quando somos jovens dançamos mesmo machucados, eu fiz isto milhares de vezes, hoje em dia sou muito mais correta com o meu próprio corpo. Acho muito importante o bailarino ter um fisioterapeuta anjo atrás de si, porque a gente expõe o físico a um estresse total. Acredito que muitas carreiras aqui mesmo no Theatro Municipal foram encurtadas porque as pessoas não tinham acesso a um bom fisioterapeuta. Eu por exemplo tenho um médico que me acompanhou a vida toda, Dr. João Ayoub. Mas devo confessar que quando eu era iniciante na carreira fiz muita coisa errada como, por exemplo, voltar aos exercícios antes dele autorizar, mas a maturidade nos ensina na vida e  de 15 anos para cá faço absolutamente tudo o que ele me manda fazer. Se eu danço até hoje, devo muito a toda prevenção e cuidado que ele teve comigo. Não posso deixar de citar o Dr. Carlson Binato médico do Theatro municipal, que sempre me atendeu em tudo o que me aconteceu dentro do teatro.

Ana Botafogo em "O Lago dos Cisnes"

K&K News: Quem são seus ídolos?

Ana: Margot Fonteyn, Márcia Haydée, Maya Plisetskaya, Charles Chaplin, Fernanda Montenegro, Lilia Cabral, Marília Pêra, Bibi Ferreira.

K&K News: Em seu ponto de vista, quais os prós e contras da maturidade tanto na carreira quanto na vida?

Ana: Na vida profissional me deu mais segurança em cena e sobre tudo sabedoria de curtir meus momentos em cena e de não me importar com pequeninas coisas. Na vida, a maturidade é boa para gente ter tranqüilidade, saber gerenciar sua vida melhor e nos obriga a ser mais dona de nossa vida. Os contras: são as ruginhas que nos aparecem mas fazem parte de nossas marcas , que fazer ?…rsrsrs

K&K News: Podemos perceber que você diversificou bastante sua carreira, Clássico, Popular, agora o contemporâneo com o grupo DC, o que você atribui a essa diversidade de projetos e o que isso agregou a você?

Ana: Sou uma bailarina essencialmente clássica, sempre gostei de fazer os grandes clássicos, mas tive a necessidade e a vontade de levar este meu ballet mais próximo do povo. Antes de entrar no Theatro Municipal fiz espetáculos coreografados por  Dalal Achar, que  tinham o intuito de popularizar o ballet, levar público leigo a conhecer e gostar desta nobre arte . Fui ,na realidade a musa inspiradora para alguns desses balés  como: Romeu e Julieta pop, Cinderella e Sonho de uma noite de carnaval . Então a partir daí, durante estes mais de 30 anos de carreira, levei sempre minha dança para perto do povo, para eles terem chance de conhecer o que era dança e o que era ballet.

K&K News: Como foi o ícone do Ballet trabalhar ao lado de ícones da dramaturgia?

Ana: Eu fiquei absolutamente encantada com todos os ícones da nossa dramaturgia que estavam em minha volta. Eu tinha um núcleo familiar importantíssimo só com grandes atores e eu era filha de Glória Menezes e Tarcisio Meira. Eram atores consagrados e experientes, que me ajudaram muito.  Lá me sentia uma novata (aliás, era o que eu era ) em início de carreira , como foi quando comecei lá em Marseille: ávida por conhecimento e tendo que tudo absorver . Foi um presente maravilhoso estar no meio de grandes ícones; eu pude aprender muito, pois quando não estava gravando eu ficava em volta assistindo as outras gravações.

K&K News: Quais são seus projetos futuros?

Ana: Por enquanto para um futuro próximo eu ainda tenho muitos espetáculos para dançar; em junho, faço espetáculos fechados no Rio de Janeiro e depois vou a Brasília e Cruzeiro no interior de São Paulo, Em julho participo dos Festivais de Petrópolis e Friburgo e então estrearemos uma temporada com coreografias de David Parsons  no Theatro Municipal . No segundo semestre vou fazer algumas viagens como convidada me apresentando em diferentes cidades e pretendo me dedicar a alguma produção clássica, que certamente será produzida por mim.

K&K News: Qual o conselho que você pode dar para as gerações futuras?

Ana: Que trabalhem muito, que façam muitas aulas e escutem seus professores, porque quem está de frente para o bailarino sabe o que é melhor. Pensar muito na alma do bailarino é meu conselho; que não esqueçam a alma, porque no mundo em geral, a técnica e o vigor físico melhoraram muito nesta nova geração, mas por favor não esqueçam da alma, porque a alma do bailarino é importantíssima, e  é isso que nos faz diferentes de qualquer atleta.

As perguntas feitas pelos fans se encontrarão respondidas brevemente na categoria de “Making off”

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